Monday, March 5, 2007

MEMORIAL DO JUMENTO

Foi no dia 28 de Setembro de 1993 que meu pai, Hélder Sabino da Mendonça, bateu a bota e ao mesmo tempo o seu recorde pessoal, contabilizando, depois de 55 anos vividos, o vigésimo-oitavo peido de feijoada.
Meu pai sempre me confessara tudo, mesmo aquelas suas idas às escondidas à casa da minha tia Jacinta para lhe pedir favores sexuais emprestados, e segredou-me certo dia uma bela história no tempo do quase extinto salazarismo. 3 de Março de 1957, tinha então nove anos de idade. Seu pai e meu avô, Albino Alcides da Mendonça, costumava dizer aos seus filhos pela hora da refeição, numa sapiência digna de um alguém que vivera em graça a subida de António Salazar ao poder, "Cá em cima está o tiroliroliro, lá em baixo está o tiroliroló".
Meu pai, abismado com a citação do seu progenitor, tentou prender com todas as forças que ainda possuía uma réstia de metano que cirandava à beira do canal rectal, mas ainda assim foi em vão, pois acabara de soltar à mesa aquilo que podemos definir como o seu primeiro peido. Tal foi a prematuridade do acto que o nome peido talvez ainda não lhe seria aplicável, mas antes mera bufa. Talvez nem bufar se deva chamar ao acto. Ao certo, acabara de pseudo-flatular.
Albino Alcides da Mendonça, que sonhara no seu estaminé com uma vida de sindicalista, uma vida pacata, invocando de quando em quando os ideais da foice e do martelo, acabaria por se entregar ao sistema impregnado por PIDES e tornou-se um agente do lápis azul. No horário laboral pouco fazia mais que afundar canetas Molin em ambas as narinas, contudo, quando chegava o momento Álvaro Cunhal, toca de pegar nas canetas de tinta azulada, esconder o papel higiénico com bocadilhos de esperma seco e cuecas com coloração castanha na zona do ânus. Numa época difícil, em que a repressão intestinal fazia também parte da vida dos portugueses, o peido tornou-se arma. E hoje, mais do que ontem, antes de um acto pecaminoso, trata-se essencialmente de terrorismo de elevador.

PLANETA DE CATOTAS

O que hoje sou não é mais que o resultado de algumas experiências (inclusivé as sexuais, com a minha mão esquerda) de infância e mesmo outras posteriores. Cada acontecimento, de forma singular, é importante para o crescimento de cada ser humano como indivíduo e sobretudo como besta social.
Recordo com alguma não diria saudade mas talvez agonia, o momento em que espreitei para baixo da cama do meu primo Cajó e em vez de descobrir uma revista de raparigas nuas, uma caixa de bonecos playmobil desmembrados ou um cágado morto, vim a encontrar uma singela e pura Amazónia povoada de macacos do nariz, colada ao estrado da cama. Foi a primeira vez que o acto de tirar burriés se tornou não só um hábito como um pecado prazeroso.
Desde aí, tenho como ritual (posteriormente a uma curta pausa para masturbação enquanto visiono a mítica actuação de Manuela Bravo no Festival da Canção) com a velocidade de um Mário Soares a limpar as unhas, arrastar para fora da narina esquerda um malogrado macaquito e deixá-lo colado numa das faces da minha almofada, na esperança vaga que me surja durante a noite a aparição da fada das catotas. Reflectindo pois sobre a designação "macaco", esta faz-me de tal maneira espécie que decido fazer uma pequena análise. Porque será que esta mucosidade esverdeada e seca tem o nome de um animal tão simpático e que ocasionalmente urina para dentro da cavidade bucal? Será porque se cola às paredes das narinas como um macaco às árvores? Será porque se pendura nos pêlos do nariz como um chimpanzé às lianas? Não sei explicar. Fico à espera que um dia me elucidem.